28 de mai. de 2015

Visita no blog - Experiências de uma grande amiga no meu Pará amado.

Orla de Santarém. O point da cidade.

Há meses atrás, uma das minhas grandes amigas aqui da Holanda me disse que iria passar dois meses em Santarém, no oeste do Pará, estado onde eu nasci. Trata-se da Sheila Sens, uma catarinense que vive na Holanda e nunca tinha pisado no norte do Brasil. Eu dei-lhe dicas de comidas típicas a provar, a conectei com minhas primas e amigas de Belém e dei-lhe um chaveiro com um voodoo da boa sorte, pra ela já ir entrando no clima das lendas e superstições amazônicas.
Mal ela chegou em Santarém, começou a me dizer coisas do tipo "muito amor pelos paraenses". Pra falar a verdade, eu já estava esperando por isso, pois por mais que eu rode o mundo, não consigo encontrar povo mais acolhedor e hospitaleiro que os paraenses, e não consigo encontrar sabores tão exóticos e indescritíveis quanto os da Amazônia. Só indo lá para entender, e agora, a minha amiga me entende, seremos duas em crise de abstinência de açaí, tapioquinha e de "ganhar novos amigos de infância" em qualquer lugar.

Segue abaixo o texto que ela escreveu na sua semana de despedida de Santarém:


VIVER EM SANTARÉM
Por Sheila Sens

E quando você chega num ambiente completamente estranho, num clima agressivo, com algumas boas intenções e milhares de dúvidas, você olha em volta, seca um pouco do suor escorrendo pelo rosto e se pergunta: o que é que eu estou fazendo aqui?

Banho no rio Tapajós, comunidade de Pimental, oeste do Pará.

As ruas têm esgoto a céu aberto, os urubus brigam nas calçadas e te impedem a passagem, as pessoas parecem conviver harmoniosamente com o calor inclemente que me faz desmaiar dentro de um ônibus sem nem mesmo ser notada pelos locais, que provavelmente pensaram que eu estava cochilando, e quando reclamo, ouço risadinhas e consolos: “mas isso é o inverno, mana, espera só pra você ver o verão...”

Os produtos industrializados ou de outras regiões são escassos, limitados e caros. A internet é dolorosamente lenta e propensa a não funcionar quando há alterações climáticas (mais chuva).  Sonhos de sentar em um café com internet sem fio e curtir umas horas do fim do dia... a ideia é simplesmente bizarra. Como é bizarra a visão de um blazer e calça social que trouxe pra encontros mais formais... a ideia de me cobrir com qualquer centímetro a mais de pano que o necessário me induz a gargalhadas descontroladas.

Passeio na floresta inundada pelas águas das chuvas do "inverno", em Caranazal, Alter do Chão.

Mas o pequeno mundo caótico e precário onde vivo neste momento é cercado por floresta e rios. A floresta e os rios mais bonitos e assustadores que eu pude conhecer na minha vida. A vida aqui é latente, pujante, a floresta fala, os rios seduzem, as trovoadas roncam pela noite avisando que estamos na estação das chuvas. No fim do dia, caminhamos na beirada do rio pra sentir o vento quente e úmido, e assistir o pôr do sol mais bonito e intenso que se possa imaginar. O sol se põe no rio, incendiando a água, os céus, trazendo as primeiras estrelas da noite, e uma nova leva de mosquitos, que debocham abertamente daquele meu repelente trazido da cidade: “Isso aqui é a Amazônia, mana!”

Pôr do sol no rio Tapajós, Alter do Chão.

 A mesma Amazônia que me enche de medo com seus milhares de insetos, répteis e criaturas que ainda nem sei definir, mas também me faz muito feliz com seus peixes deliciosos e carnudos. A comida aqui por essas bandas do Pará é intensa, é gostosa, é suculenta, é viciante. A maioria dos pratos tem nome e origem indígena, que eu anoto em pedaços de guardanapo pra não esquecer: piracuí, pirarucu, tacacá, tucupi, taperebá, ingá...

Por toda parte vê-se traços indígenas e caboclos, a população muito aberta e sorridente, onde um “bom dia” é dado com a mais calorosa sinceridade que já tive a chance de ouvir. Nunca se está muito tempo sozinho, nunca falta uma pessoa amiga pra ouvir você com atenção ou te contar como a família migrou pra essas cercanias, há 30 anos, encontrando aqui a fartura de uma floresta rica e um chão fértil. O ritmo nessas bandas é mais lento, ditado pelas ondas de calor úmido. Já disse que faz calor? Por mais acostumado que o caboclo esteja, há momentos que só um cochilo na rede repara. E quando a noite cai, uma roda de carimbó parece a coisa mais óbvia a se fazer, com saias rodopiantes e braços estendidos pro céu, numa oração expressada em passos ágeis e sorrisos soltos.

Roda de carimbó, ritmo típico do Pará, para animar a noite.

E eu, que sou uma rata urbana, nascida e criada no “lado europeu” do Brasil, com fobia severa a bichos – destaque para cobras e até mesmo minhocas – e a pele mais sensível e dada a queimaduras solares que se possa imaginar, o que eu vim fazer aqui, no oeste do Pará, na floresta amazônica, com planos de me embrenhar no mato visitando comunidades indígenas e ribeirinhas, subir os rios de barco, dormir em rede, tomar banho em igarapés, dançar com os indígenas, alimentar botos, fotografar garças, ser arrebatada pelo pôr do sol?

Açaí com peixe frito, o mais novo vício da Sheila.

Vim viver tudo isso. Vim conhecer a verdadeira face do Brasil, vim aprender, vim quebrar paradigmas e eliminar preconceitos, vim ficar viciada em açaí (assim purinho, sem açúcar) e tapioca fresquinha no café da manhã. Aliás, como é mesmo que se vive sem açaí e tapioca? Vim fazer amigos fantásticos, vim ouvir mazelas de um povo esquecido pelo governo, mas também histórias da floresta, de amor, de encantados, de tradições. Eu vim me apaixonar, mana, e por mais improvável que pareça, descobrir um lugar de onde eu não esteja assim com tanta pressa de partir.


Banho de despedida no rio Tapajós, em Ponta do Cururu.





 

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